Tic Tac Tic Tac

Durante minha pré viagem, me programei para ter um mês e meio livre entre meu último dia de trabalho e o dia que eu colocaria meus dois pezinhos dentro do avião. Para quem vivia sempre na correria, aquele um mês e meio sem trabalhar me parecia uma eternidade.

Eu fiz milhares de planos. Iria passar um final de semana na casa da minha amiga Dani, iria ao cinema em plena segunda-feira e alguns dias eu ficaria na programação pijama + netflix + pipoca. Como eu costumava dizer, eu seria milionária,  teria todo o tempo do mundo.

Passados uns 10 dias deste período de bonança temporal, encontro uma amiga para um café e comento a correria que estava minha vida, check list da mala, check list de vacinas, check list de todas as pessoas que eu queria ver antes de viajar, quando ela falou: “nossa, Camilla, parece que você continua trabalhando”. Nesta hora, caiu uma ficha daquelas bem pesada.

Eu continuava correndo atrás do tempo, tentando otimizar cada segundo como eu sempre fiz, e mesmo com mais tempo disponível, eu não conseguia enxergar nenhuma sobra, nenhuma disponibilidade para a famosa ociosidade criativa de Domenico De Masi.

Fui para casa me sentindo estranha. Juro que acreditava que quando parasse de trabalhar, uma chave interna mudaria automaticamente do modo “corra, você tem pouco tempo” para o modo “permissão para relaxar” ,e a partir daí, tudo seria mais leve, minhas leituras seriam mais prazerosas e eu não assistiria mais os filmes no Netflix dando pausa para ver quanto tempo faltava para acabar pois eu precisava fazer alguma outra coisa.

Mas a minha chave interna estava totalmente emperrada.

Sempre tratei o tempo como recurso escasso. Fazendo uma retrospectiva da minha vida anterior, que eu dizia que nunca tinha tempo para nada, passava semanas sem sentar no meu confortável sofá para um momento relax e sempre culpava o trabalho, o trânsito, a correria de São Paulo, comecei a pensar o quanto isso era real e o quanto não era causado pela minha condição de escrava do tempo.

Na busca desesperada por uma explicação para o que acontecia, conclui que tudo bem estar me sentindo assim, afinal, eu estava muito ansiosa por causa da viagem e este comportamento até que era compreensível. Assim que eu entrasse no avião tudo iria melhorar, eu relaxaria, com certeza.

Mas hoje posso dizer que isso não aconteceu. A chave já começou a se mover lentamente, muito lentamente, mas ainda corro atrás do tempo. Estudo inglês achando que devia estar andando no parque, ando no parque achando que devia estar escrevendo para o blog e agora escrevo para o blog me culpando que não estou pesquisando minha hospedagem na Nova Zelândia. Não consigo me colocar no momento presente.

Quando a gente entra num avião, pode ser para um feriado, uma viagem de férias ou para um ano inteiro viajando como o meu, temos a ilusão que seremos obrigatoriamente felizes e tudo irá funcionar como gostaríamos que funcionasse. Mas não existe este tubo mágico. Junto com a mala de mão, vai um ser humano inteirinho na sua complexidade, com seus vícios e manias cultivados por anos. Não é por que estou na minha viagem de volta ao mundo que deixei de querer controlar as coisas ao meu redor ou que aboli as listas de pendências da minha vida.

Coloquei que meu primeiro desafio é me aceitar por inteiro, nos defeitos e nas qualidades. E só então começar a mudar,  chave por chave, cada uma na sua respectiva velocidade, umas mais rápidas, outras nem tanto…

E tenho que parar por aqui pois agora é hora de fazer minha lição de inglês!

 “Ninguém parecia notar que, ao poupar tempo, na verdade estava se poupando de outra coisa. Ninguém queria admitir que sua vida estava se tornando cada vez mais pobre, mais monótona, mais fria. Quem mais sentia isso eram as crianças, pois ninguém mais tinha tempo para elas. Mas tempo é vida. E a vida reside no coração. E quanto mais as pessoas poupavam tempo menos tempo elas tinham. ” 

Trecho do livro Momo e o Senhor do Tempo, Michael Ende.

11 Comentários Tic Tac Tic Tac

  1. Adri Julio 20 de outubro de 2015 às 11:40

    Ca, sei exatamente o que é isso! Nesta minha fase, período sabático obrigatório (rs) tenho uma lista diária de coisas a fazer pq não posso e não quero me sentir “improdutiva”, “sem fazer nada”…no final do dia estou exausta e me sentindo culpada pq não cumpri a “bendita” lista….mas a meditação diária, ou melhor, quase diária, e algumas leituras têm feito minhas “chavinhas” funcionarem de forma diferente…o processo é lento, afinal é uma vida de cobranças por produção, produção, produção mas, como diz o último livro q li, o importante é que consigamos ser, pelo menos, 10% mais felizes…

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    1. Camilla Albani 26 de outubro de 2015 às 23:37

      sim, o problema é a produção.
      espero que esteja conseguindo melhorar por aí…
      vc recebeu meu e-mail sobre o curso de inglês?
      beijos

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  2. Carmen Leal 20 de outubro de 2015 às 12:29

    Boa tarde Camilla, o grande segredo para viver é deixar o controle de lado e viver um dia de cada vez, procurando não administrar esse tempo e espaço nosso. O grande barato está em entendermos que não existe esse tempo e espaço e que a força do Universo é que nos dá o caminho, o momento certo para as coisas acontecerem em nossas vidas, não sabemos.

    Beijo e vá, mas vá com calma e curtindo cada momento.

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    1. Camilla Albani 26 de outubro de 2015 às 23:36

      Oi Carmem!
      Acho que minha maior dificuldade é “confiar no processo da Vida”…nós não temos outra saída a não ser confiar,inclusive a cada dia ela me emite sinais que posso e devo confiar 🙂
      Mas como disse, vamos com calma, ainda está começando e vou melhorar a cada dia!
      Obrigada pelo carinho.
      Beijos

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  3. Daniela 21 de outubro de 2015 às 08:24

    Por que corremos tanto? Não “somos jovens e temos o tempo todo do mundo”? rs

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    1. Camilla Albani 26 de outubro de 2015 às 23:33

      Por que a gente aprendeu que tem que ser produtivo, que tem que produzir…estou procurando onde eu tiro este chip! rsrs beijos, saudades e quando eu voltar vai ter que dá o fds na casa da minha amiga Dani!

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      1. Daniela 27 de outubro de 2015 às 21:16

        Estamos sempre pensando no amanhã, não é? Sofro desse mal também!

        Na volta, 1 semana em Mogi City será pouco…

        Bjos e mande mais notícias no whats!

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  4. Suzana 21 de outubro de 2015 às 11:21

    Entendo bem o seu relato. Agora por exemplo estou me recuperando de uma cirurgia que fiz na semana passada, minha mãe em casa me ajudando e pergunta se eu já comecei a fazer tudo que planejei nesse ócio de 15 dias de repouso. Quero pintar, quero escrever também, terminar um texto que comecei a escrever, quero organizar as coisas em casa, mas… ah o tempo… tb preciso aprender a ser parceira de mim mesmo.
    beijos, sucesso
    Suzana

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    1. Camilla Albani 26 de outubro de 2015 às 23:31

      Oi Su! Espero que tenha se recuperado bem. 🙂
      Sinceramente esta questão do tempo é o que mais tem me aborrecido,mas espero melhorar a cada dia nesta aventura…
      Beijos

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  5. Cristiane 17 de novembro de 2015 às 09:33

    Oi Ca! Que bacana este seu exemplo de vida, tenho aprendido muito com você e sua saga… O tempo realmente tem sido o mal da nossa sociedade, não sabemos mais lidar com ele, e nos acostumamos com este ritmo frenético. Obrigada pelos ensinamentos. Tem sido muito legal! bjs

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    1. Camilla Albani 19 de novembro de 2015 às 16:30

      oi Cris, fico feliz que o meu compartilhamento das experiências está sendo útil, este era um dos objetivos quando decidir criar o blog 🙂 Se quiser ler mais sobre o tempo, este livro que cito no final do texto, “Momo e o senhor do tempo” é um livro infanto juvenil, mas é muitooo legal, super atual de como lidamos como o tempo, recomendo. Beijo Grande

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