Sobre Vipassana

Neste primeiro post sobre o retiro de meditação que eu fiz na Malásia, vou contar um pouquinho o que é esta tal de Vipassana. Como muita gente se mostrou interessada, acho que vale esta introdução. No próximo post, eu contarei sobre minha experiência pessoal, que já adianto que foi mega difícil, com direito a crise de choro e tudo mais.

A Vipassana é conhecia como a técnica de meditação mais antiga da Índia, aquela que mantém as orientações originais do Buda.  Entretanto, estes ensinamentos se perderam por muitos anos. Apenas em Burma (hoje Myanmar – e já aviso que não entendo estas mudanças de nome e política desse país) que esta técnica foi preservada por alguns professores. No ano de 1955, um empresário deste país que sofria de muitas dores de cabeça, depois de visitar diversos médicos, resolveu aprender esta meditação como solução para suas dores que descobriu ser algo psicossomático. E foi ele, S. N. Goenka, o último “grande mestre” da Vipassana. Ele se mudou para a Índia em 1969 e começou a reintroduzir a Vipassana por lá.

Nesta técnica não é utilizado nenhum mantra, repetição de palavras ou exercícios de visualização. O grande objetivo é você conseguir focar na sua respiração e sentir as sensações do seu corpo, observando a realidade a partir de diversos ângulos. Isso de uma forma bem simplificada, já que a duração total do curso são 10 dias, sendo que nos 3 primeiros é só para treinar a mente a focar na respiração e é a partir do quarto dia que a Vipassana começa a ser realmente ensinada, passo a passo.

Uma coisa muito interessante é que apesar de ter dois professores no retiro (um para os homens e outro para as mulheres), todos os ensinamentos, que podem ser em áudio ou vídeo, são gravações do S. N. Goenka. No curso que eu fiz, tudo era passado em inglês e em mandarim. Ou seja, estes ensinamentos foram traduzidos para diversas línguas, mas é sempre usado este material original para preservar a natureza da técnica, independente se o retiro acontece na Índia, na Malásia ou no Brasil.

Esta questão de ficar incomunicável por 10 dias é uma das partes mais complicadas, já que estamos acostumados a estar sempre em contato, disponível. Além de não poder falar, também é proibido ler e escrever. Mas hoje consigo entender completamente como este período de isolamento é importante. O objetivo é tentar blindar sua mente de qualquer influência externa. Na tarde do décimo dia, é liberada a conversa entre os alunos. Neste momento, fica nítido como a mente fica mais agitada e a prática da Vipassana fica mais complicada. A idéia é facilitar a conexão entre corpo e mente.

Outra coisa muito legal é que este retiro não tem nenhuma conotação religiosa. Existe uma saudação que eles fazem quando termina algumas explicações do S. N. Goenka, mas já no primeiro dia eles avisam que ninguém é obrigado a fazer, só quem se sentir a vontade. Além disso, o curso é totalmente gratuito, incluindo alimentação e acomodação. O custeio é feito com base em doações, que só podem ser feitas por aqueles que completarem os 10 dias e que realmente perceberam os benefícios da técnica e que gostariam de ajudar a propiciar esta experiência para mais pessoas. É algo aberto para qualquer religião, raça, classe social.

Num dos vídeos, S.N. Goenka fala que quando ele teve essa idéia de transformar o retiro de graça, o pessoal lá na Índia achou uma loucura. “Aqui é um país pobre, muita gente vai vir só para comer”. E ele disse que não tinha problema, pois eles não sabiam o quanto iam ter que trabalhar nestes 10 dias, se eles aguentassem o tranco da disciplina da técnica, não teria problema. Além disso, quando o aluno não paga, ele não pode exigir nada e tem que seguir aquelas regras para permanecer até o final. Esse foi o grande motivador para transformar o ensino da Vipassana em algo totalmente sem fins lucrativos e parece que tem funcionado.

Quando falo em trabalho difícil é porque a rotina é a seguinte:

4:30 – 6:30 Primeira meditação do dia (não é obrigatória e pode ser feita tanto no hall de meditação quanto no seu quarto).

6:30 Café da Manhã – Meu momento mais felizzzz! Fruta, Iogurte, Leite e Torradas. Tinha as comidas asiáticas também, mas eu passo.

8:00 – 9:00 Meditação em grupo obrigatória.

9:00 – 11:00 Meditação em grupo com áudio de ensinamentos, mas normalmente depois das 10h, a gente podia meditar no quarto.

11:00 Almoço – Confesso que depois do 4º dia eu tinha vontade de chorar quando sentia o cheiro da comida. Sempre uma refeição vegetariana, com muito estilo asiático.

12:00 – 13:00 Hora de descansar, lavar roupa, hora que eu estava lavando até roupa limpa para não pirar o cabeção.

13:00 – 14:30 Meditação não obrigatória, mas a gente tentava né, já que não tinha absolutamente nada mais para fazer.

14:30 –15:30 Meditação em grupo obrigatória.

15:30 – 17:00 Meditação em grupo com áudio de ensinamentos, mas normalmente depois das 16h a gente podia ir meditar no quarto.

17:00 Jantar…Jantar?? Nada de jantar! Segundo a técnica Vipassana, nós não devemos comer depois das 12h, mas para os alunos novos, eles serviam uma fruta e leite.

18:00 – 19:00 Meditação em grupo obrigatória.

19:00 – 20:15 Vídeo de discurso do S. N. Goenka –  Minha hora favorita, depois do café da manhã, é claro. Era a única parte do dia que tinha algo mais intelectual. E isso é totalmente de propósito, pois o que eles dizem é que meditação é prática, prática, prática. Não adianta ler um trilhão de coisas, assistir a vídeos sobre meditação, mas não sentar e praticar.

20:30 – 21:00 Última meditação do dia.

21:00 – Cama! No lugar que eu fiz o retiro, as instalações eram bem legais, cada um tinha seu quarto e seu banheiro privativo. O sofrimento era não ter ar condicionado num calor de Belém do Pará e a companhia de muitos insetos.

De todos os ensinamentos, o que eu mais gostei e que ficou fortemente gravado dentro de mim, é a questão de aceitar a impermanência da vida. Aceitar que as coisas boas e as coisas ruins acontecem, elas sempre vem e vão. E temos que aceitar, sentir cada uma delas sem desejar que a boa fique por muito tempo e a ruim vá embora. Não é possível engarrafar momentos incríveis nem pular momentos difíceis (ainda estou no jardim da infância nesta lição!).

Se eu recomendo o retiro? Acho que a experiência vale muito a pena, mas é bom ir bem preparado mentalmente para não desistir no meio do caminho, pois eu acho que desistir no meio desta estrada pode ser pior do que não começar.

Para quem se interessar, neste link tem tudo o que você precisa saber e todos os lugares no mundo onde este retiro é oferecido:

https://www.dhamma.org/pt/

E como diz S. N. Goenka, “BE HAPPY”

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