Casamento: Por Amor ou Arranjado?

Antes de qualquer coisa, é importante deixar claro que a cultura indiana pode mudar a cada esquina. Mudam a língua (lembrando que o país tem 17 línguas oficiais), os ritos, o jeito de se vestir e os costumes. É extremamente difícil dizer que na Índia as coisas funcionam da maneira X ou Y, pois depende da região, da casta, e por aí vai. O que eu vou contar é com base na minha experiência aqui em Jaipur, observando a história das pessoas ao meu redor.

Escrever sobre os matrimônios indianos se tornou um desafio para mim, porque é um ato complexo que envolve grana, família, posição social, religião e, às vezes, amor. Se eu fosse uma indiana padrão, eu teria que estar bem adaptada a responder 3 perguntinhas básicas: se eu sou solteira ou casada (caso a resposta seja casada, a pergunta seguinte seria onde está o meu marido), qual a minha casta e se sou vegetariana. Com base nisso, já dá para entender um pouquinho a importância do matrimônio, da posição na sociedade e do credo.

A primeira informação super importante é que os casamentos arranjados são a maioria. Eu sempre ficava confusa quando ouvia o pessoal falar de arranged and love marriage, pois eu achava que isso era papo da TV Grobo na novela Caminho das Índias e que claro que no século 21 esta coisa não existia mais. Pois é. O jeito mais comum de se casar por aqui é quando os pais dos noivos procuram um pretendente para seus filhos, fazem um acordo entre as famílias e quando os pombinhos têm sorte, eles conseguem se ver umas poucas vezes antes do casório. Caso contrário, eles têm acesso a uma foto que muitas vezes é passada no photoshop e só no dia do casamento que se descobre a surpresa kinder ovo (me arrepio só em pensar).

Este acordo entre as famílias envolve muitas coisas, mas acho que a primeira delas é que eles buscam alguém da mesma casta social. Isto foi outra surpresa para mim, já que eu também não sabia da importância que ela tem até os dias de hoje, e como este fator define o que você pode comer, como se vestir, quais os rituais você tem que seguir, sua profissão e algumas coisas mais. Assim, acaba sendo importante se casar com alguém da mesma condição que a sua, facilita a vida. Mas é claro que ocorrem casamentos entre castas diferentes (principalmente quando é por amor) e claro também que será a mulher quem vai ter que se adaptar aos costumes do marido.

O segundo ponto importante na negociação é o dote que a família da noiva vai pagar para a família do noivo. Isto pode ser em dinheiro, mas pelo que vi é muito comum ser carro, moto, jóias, casa, e por aí vai. Soube que quando este costume começou, o objetivo era suprir o noivo com tudo o que ele precisava para dar conforto para a noiva. Hoje em dia me parece que este lance do dote é mais um negócio, business. Muitos casamentos ocorrem pelo interesse da família do noivo na grana da família da noiva. Sacou?

Agora o que me deixa mais inconformada é o costume em que depois do casamento a mulher se torna meio que propriedade não só do esposo, como da família dele. Se o casal for morar numa joint family (várias famílias em uma mesma casa), com certeza vai ser na casa da família do marido. Conheci uma menina que me disse não gostar muito de ir para a casa dos sogros, porque lá ela tem que acordar cedo para preparar o café da manhã para todo mundo, fazer o serviço de casa e só depois poder descansar. Oi?!!!!

Eu tenho várias discussões filosóficas com meu amigo indiano que é meio ovelha negra da família, não segue os costumes da casta, não é vegetariano e toma cerveja (não é por acaso que ficamos amigos). Ele não gosta dessa cultura e me contou que já viu muita coisa que o deixa triste até hoje, mas vive querendo me convencer que as mulheres são felizes aqui. Eu fico com grandes dúvidas. Penso que, no máximo, elas possam achar que tem uma vida feliz por não conhecer a palavra liberdade.

Conversando com uma menina casada e grávida de 6 meses, perguntei se ela preferiria menina ou menino. Ela me falou que para ela e o marido, tanto faz, mas a maioria das pessoas prefere meninos. Em seguida, perguntei  que vida ela deseja para a filha, caso seja uma menina. Perguntei se ela deseja uma vida como a dela. E sem hesitação, ouvi: “Claro que não, espero que até ela crescer as coisas tenham mudado”. Então não consigo me convencer que elas são tão felizes assim.

Eu juro que não queria escrever um texto com uma visão tão pessimista sobre as uniões indianas, mas eu o reescrevi umas dez vezes e não consegui  fazer de outro jeito. Minha intenção não é julgar se está certo ou errado. Esta é só a minha visão. O olhar de uma brasileira de 36 anos, solteira, que saiu da casa dos pais com 18 anos, com uma bagagem cultural totalmente diferente e que foi criada por um pai que falava coisas assim “Você não deve nunca depender de um homem”, “tem que ter sua independência, principalmente financeira”. Com este meu histórico, fica difícil compreender esta cultura. Como mulher, me dá um aperto no peito só de pensar em viver assim. Por outro lado, quando eu tento colocar a lente destas mulheres indianas olhando para mim, provavelmente elas acham a minha vida bem triste, por eu não ter uma família, um marido para “cuidar” de mim e sintam, de maneira recíproca, este mesmo aperto no peito.

Acho que isso se chama empatia, né? Mais uma coisa que estou aprendendo por aqui.

 

3 Comentários Casamento: Por Amor ou Arranjado?

  1. Marcelo 6 de setembro de 2016 às 02:08

    Oi, Camila. Mais um post show. Pois é, a Índia é realmente outro planeta em termos culturais e tem coisas que são muito difíceis de aceitar na nossa visão ocidental. Essa questão de como as mulheres são tratadas é uma delas. Nossa grande decepção com a Índia foi principalmente devido a esse fato. A minha mulher foi assediada constantemente nas ruas (e olha que somos um casal de quase 50 anos!). Os olhares não eram nada amigáveis e ela se sentiu muito constrangida.

    É bastante complicado tentar não ser “politicamente incorreto” e imputar todas essas coisas ao “fator cultural”. No extremo, esse raciocínio justifica qualquer coisa no mundo, como violência contra a mulher, contra os animais, rituais de mutilação, guerras. Se tudo é “cultural”, teríamos apenas que aceitar. Achar a fronteira é muito difícil. E na Índia, estando localizada fora da Terra, as coisas complicam mais ainda. Reflexões…reflexões.

    E não esqueça de aproveitar seus últimos dahls e currys por aí.

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  2. Cristina Amaral 25 de novembro de 2016 às 09:59

    Camila, gostei muito de ler suas experiências de viagens. Corajosa, você, sair pelo mundo. Estou me fortalecendo para fazer o mesmo aos 60. Você me inspirou. Parabéns pelo blog. bjs

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    1. Camilla Albani 25 de novembro de 2016 às 14:43

      Obrigada Cristina! Na minha viagem, eu encontrei pessoas de todas a idades biologicas…rs o que importa mesmo para viajar e saude e idade de espirito! boa sorte nas suas andanças tambem! beijos e conte com meu apoio

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