O Chão que a gente Pisa

Recentemente fui convidada para ir num encontro de viajantes. Na verdade, era um bate papo com pessoas que estão planejando fazer uma viagem de longo prazo e a idéia era de compartilhar um pouquinho das minhas experiências.

Logo no começo da conversa, na nossa roda de apresentações, ouvindo cada um dizer o que estava fazendo ali, qual era o seu plano de viagem, me veio a cabeça uma questão que me perguntei algumas várias vezes neste meu ano “de volta a vida real”. O que faz uma pessoa desejar fazer uma viagem de longo prazo? Quais são as principais motivações? A priori, sem pensar muito, responderia aquilo que respondi muitas vezes para mim mesmo. “É a vontade de conhecer o novo, novas culturas, de se aventurar pelo mundo”.

Entretanto, olhando a questão com menos romantismo, começo a sentir na fala de cada um algumas angústias já bem conhecidas. Insatisfações com o trabalho atual ou com a escolha da carreira, angústias amorosas ou aquela famosa sensação de que a vida está passando e não estamos fazendo dela nada de extraordinário. E claro que nada mais reconfortante para estas situações do que navegar despretensiosamente pelos perfis de viagem no Instagram, com praias e desertos maravilhosos, pensando que se fossemos tele transportados até ali, tudo poderia ser bem diferente.

Mas eu tenho que contar que não é e não poderia ser diferente. A maior certeza que tirei dessa minha experiência de volta ao mundo é que não importa para onde você vai, mas quando coloca seus pezinhos no avião, no trem ou no buzão, além da mochila, sempre carregamos outra coisa junto: nós mesmos. Isso até parece óbvio, mas não é. Junto com a mochila, levamos nossas dúvidas, nossos medos, nossas incertezas. E nem sempre será mais fácil de lidar com tudo isso na praia paradisíaca, muitas vezes pode ser até mais difícil.

Não estou querendo dizer que eu me arrependo de ter viajado (NÃO!) ou que a experiência de conhecer o mundo não é algo incrível, mas que todos que estão diante de uma grande decisão de vida como esta (que pode ser viajar ou se casar/separar ou ter filhos ou mudar de emprego/carreira, etc.), deveriam parar um pouquinho de se distrair lendo os blogs, navegando os perfis do Instagram e olhando para o que o fulano ou a fulana fizeram, para olhar um pouquinho mais para dentro de si. Fazer o exercício de estratificar melhor este tal “sonho”, para poder adequar um plano de viagem que tenha a ver com você e não com os outros. E seu plano de viagem pode ser sim uma volta ao mundo ou até mesmo uma volta no quarteirão, desde que ele seja adequado a você.

Hoje vejo claramente que fiz pouco desse exercício, me distrai demais no externo e olhei pouco para dentro de mim. O que eu faria de diferente? Muitas coisas. Eu buscaria mais experiências de verdade durante a viagem. Os lugares que mais gostei foram, por coincidência ou não, aqueles que me permiti ficar pelo menos um mês. Austrália, Tailândia e Índia. Países totalmente diferentes, mas que me permitiram entrar um pouquinho em suas estórias e me sentir parte dali, ter tempo de escolher meu restaurante preferido, conhecer algumas pessoas locais e conseguir entender um pouco como funciona aquela sociedade, nem que fosse de uma forma mais superficial. Além disso, acho que eu procuraria ter feito alguns cursos durante a viagem, já que gosto tanto de estudar.

Entretanto, minha energia estava sempre consumida para descobrir como ir de A para B sem gastar muito, onde eu iria dormir e quanto estava gastando. Fico com preguiça só de me lembrar dessa parte. Na maioria dos blogs de viagem e nas fotos lindas do Instagram, se esquecem de contar o quanto esta parte cansa e que às vezes você viaja horas e horas para ver um pouco mais do mesmo, e que se tivesse ficado mais parado, observando e se observando também, o resultado poderia ser mais interessante. Lógico que teria alguns “check ins” a menos, mas o quanto isso realmente importa?

Quando estava terminando este texto, me veio o pensamento que talvez somente eu, a viajante conflituosa, tinha estes sentimentos pós-viagem. Mas foi quando um amigo que também fez uma volta ao mundo me manda a seguinte mensagem:

“Tem horas que eu acho que ter feito o movimento de parar tudo e ir viajar foi a melhor e a pior coisa que já fiz na vida. Foi ótimo para rever muita coisa, para viver aquilo tudo, mas hoje eu me olho e me vejo mais perdido e preso do que nunca.”

Sim, isso também pode acontecer.

Eu dedico este texto aos queridos viajantes que conheci no evento que contei no começo do texto. No final das contas, estamos todos juntos. E fica aqui uma provocação a todos nós, viajantes da vida:

“Deveríamos fazer do comum algo de extraordinário e então nos surpreenderíamos descobrindo que está muito perto de nós a fonte de prazer que buscamos em algum lugar distante e difícil.

Estamos muitas vezes a ponto de pisar na maravilhosa utopia, mas acabamos olhando por cima dela com nosso telescópio”.

Ludwig Tieck

Que tenhamos mais coragem de tirar os olhos do telescópio e viver de corpo e alma no chão que os nossos pés tocam no hoje e no agora.

 

1 comentário O Chão que a gente Pisa

  1. Artur 28 de setembro de 2017 às 03:26

    Muito boa reflexão, Camilla!

    Acho que quando você viaja menos mas por outro lado se permite ficar por mais tempo em um determinado lugar, os efeitos/frutos desse ambiente serão maiores dentro de você.

    Saudades de ti!

    Um beijo
    Artur

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